Saímos do hotel em São Francisco cedo, com aquela neblina que gruda na roupa, e só voltamos de noite. No meio do caminho a gente atravessou o vale agrícola da Califórnia, onde o calor é de rachar, e depois subiu de novo para o frio. Foi um dia longo em todos os sentidos.
O roteiro chamava esse dia de O DIA EXTREMO, e não era exagero. Em um dia só nós passamos por três empresas que representam três estágios completamente diferentes de um negócio: uma fábrica compartilhada de robôs que começou com um prédio abandonado, uma operação logística que é basicamente matemática em escala industrial, e a companhia mais valiosa do planeta.
Este texto não é diário de viagem. É o que eu anotei no celular entre uma parada e outra, olhando para cada uma dessas empresas com a única pergunta que interessa para quem tem negócio: o que aqui dá para copiar na segunda-feira?
Oakland: o brasileiro que construiu uma fábrica de robôs com as próprias mãos
A primeira parada foi no Circuit Launch, em Oakland. Do lado de fora, um galpão. Do lado de dentro, 31 mil pés quadrados de bancadas, impressoras 3D, osciloscópio, braço robótico, torno, e cerca de 80 startups de hardware e robótica trabalhando no mesmo chão. Juntas, essas empresas já levantaram mais de US$ 100 milhões.
Quem fundou isso é um brasileiro: Alex Dantas. E a história dele é o tipo de coisa que eu preciso contar porque, sinceramente, faz a gente parar de reclamar.

Alex nasceu em Goiás. Fez escola técnica de mecânica, entrou em Direito na PUC de Goiânia e largou o curso para aceitar uma bolsa de balé clássico nos Estados Unidos. Isso mesmo: balé. Depois largou o balé também, serviu nas forças armadas americanas como engenheiro de embarcações, passou por missões no Japão e na República Dominicana, e em algum momento desse caminho todo decidiu que ia construir um lugar onde engenheiro de hardware pudesse tocar o produto com a mão.
Ele achou um prédio em Oakland parado havia mais de uma década. Convenceu o dono a virar sócio em vez de cobrar aluguel. Colocou o próprio dinheiro, juntou dois anjos e passou meses trabalhando na obra ele mesmo, montando bancada, puxando fiação, resolvendo o que aparecia. O Circuit Launch abriu em 2017. Hoje tem um segundo campus em Mountain View, dentro do prédio que já foi casa da Boston Dynamics.
Repare na sequência: não teve rodada de investimento antes do prédio existir. Teve prédio abandonado, negociação, mão na massa e meses de obra. O capital veio depois que a coisa estava de pé.
A palestra do Alex e os dois slides que me incomodaram
A palestra dele foi incrível, e eu digo isso como alguém que já subiu e já assistiu palco em 120 eventos. Ele começou pelo básico, o que muita gente pula: a diferença entre ANI, AGI e ASI. Inteligência artificial estreita, que faz uma coisa só muito bem. Inteligência artificial geral, que se comporta como humano em qualquer tarefa. E a superinteligência, que é mais capaz que nós em tudo.

Depois ele projetou o gráfico que mudou o clima da sala. É o teste MMLU, que mede conhecimento geral em 57 áreas, de matemática a direito, comparando modelos de IA com gente de verdade.

Leia os números com calma, porque eles contam uma história em seis anos:
- GPT-2, em 2019: 32,4. Abaixo do humano médio, que tira 34,5.
- GPT-3, em 2020: 43,9. Já passou o humano médio.
- GPT-3.5, em 2022: 70,0. Um salto de 59% em dois anos.
- GPT-4, em 2023: 86,4. Encostou no especialista humano, que tira 89,8.
- o1, em 2024: 92,3. Passou o especialista e bateu no teto do teste. O problema virou a prova, não o modelo.
E aí veio o slide dos robôs humanoides, com dez máquinas em produção, incluindo o NEO da 1X, que é uma das empresas que passaram pelo Circuit Launch.

Agora, o detalhe que me incomodou e que é o ponto inteiro desta seção. Olhe a data no canto dos slides. O gráfico do MMLU está marcado como setembro de 2024. O painel de robôs também é de 2024. O slide comparando GPT-4 com testes humanos é de 2023.
Ou seja: aquilo que fez a sala inteira prender a respiração é foto de dois anos atrás. De lá para cá vieram modelos de raciocínio, agentes que executam tarefa sozinhos, e a própria OpenAI classificando um modelo como risco crítico em capacidade ofensiva. Se o slide de 2024 já assusta, o problema não é o slide. É a velocidade.
Eu fico pensando no empresário brasileiro que ainda está decidindo se "vai entrar nessa de IA". A tabela que ele está usando para decidir tem dois anos. E a maioria das empresas brasileiras ainda está parada nesse mesmo lugar, esperando uma clareza que não vai chegar. Se você está nessa etapa, comece por aqui, mas comece.
Tracy: 1,2 milhão de pés quadrados de operação rodando
Segunda parada: centro de distribuição da Amazon em Tracy, o OAK4. O contraste com a manhã não podia ser maior. De manhã a gente viu criação, à tarde a gente viu execução.

O galpão tem 1,2 milhão de pés quadrados, o equivalente a cerca de 22 campos de futebol americano. Milhares de robôs deslizam por baixo das prateleiras, erguem estruturas de até 340 quilos e levam a mercadoria até a pessoa. O produto não fica organizado por categoria, como na sua cabeça. Ele fica onde couber, e o sistema sabe exatamente onde é.
O que eu quero que você entenda dessa visita não é o robô. Robô é caro, é bonito e não serve para nada sozinho. O que faz aquilo funcionar é o processo desenhado antes do robô existir. A Amazon não automatizou a bagunça. Ela organizou primeiro e automatizou depois.
Eu vejo muito empresário comprando ferramenta de IA para dar velocidade a um processo que ninguém nunca escreveu no papel. O resultado é bagunça mais rápida. Se a sua operação tem passo que só o Fulano sabe fazer, você não tem processo, você tem refém.
Cupertino: o Lucas, o café e a régua do detalhe
De Tracy seguimos para o Apple Park Visitor Center, em Cupertino. Quem nos recebeu foi o Lucas, brasileiro, engenheiro de software na Apple. Tem uma coisa difícil de descrever que acontece quando você está no meio de um grupo de empresários brasileiros e é recebido por um conterrâneo que escreve código para a empresa mais valiosa do mundo. O teto da sala sobe.

E o detalhe que ficou comigo do Apple Park foi esse café. Parece bobagem escrever sobre um cappuccino, mas repare: o desenho na espuma é a maçã. Ninguém compra Mac por causa disso. Ninguém tuita sobre isso. Provavelmente nem está na meta de ninguém lá dentro.
Mas é exatamente esse tipo de coisa que separa marca de fornecedor. Marca é o acúmulo de decisões pequenas que ninguém cobrou de você. O e-mail de boas-vindas que você reescreveu quatro vezes, o áudio de suporte com a sua voz, a embalagem que chega dobrada do jeito certo. Cada um desses detalhes isolado não faz diferença. Todos juntos são a diferença inteira.
E no fim do dia, a garagem
A última parada não estava no roteiro. Fomos até Los Altos, na 2066 Crist Drive, a casa onde a Apple nasceu. Uma casa de rua, de um andar, com uma garagem comum, em um bairro em que qualquer brasileiro de classe média se sentiria em casa. Sem placa gigante, sem loja de souvenir, sem fila.

E tem uma correção histórica nessa história que eu gosto ainda mais que a lenda. Steve Wozniak diz que a Apple não começou na garagem. Segundo ele, as primeiras 50 unidades do Apple I foram montadas no quarto de hóspedes da casa. A garagem veio meses depois, quando a operação cresceu. A garagem foi o upgrade.
Ou seja: até o mito fundador mais famoso da tecnologia mundial é uma versão embelezada de um começo ainda mais improvisado que o contado. Não teve galpão, não teve escritório, não teve investidor. Teve um quarto de hóspedes e dois caras montando placa à mão.
Eu vivo de audiência há 12+1 anos e já ouvi centenas de empresários me dizerem que vão começar quando tiverem estrutura. A estrutura é consequência. Ninguém constrói o Apple Park antes de ocupar o quarto de hóspedes.
O que eu levo do primeiro dia
- Comece com o que está parado na sua frente. O Alex transformou um prédio vazio havia dez anos em um hub de robótica. Você provavelmente tem uma lista de clientes antigos, um canal parado ou um produto meio pronto esperando exatamente isso.
- Desenhe o processo antes de comprar a ferramenta. A Amazon não colocou robô em cima de bagunça. Escreva o processo em uma página, sem nome de pessoa, e só então pergunte o que dá para automatizar.
- Atualize a sua tabela de decisão. Se o seu julgamento sobre IA foi formado há dois anos, ele está velho. E decisão de dono tomada com dado velho custa caro.
- Cuide do detalhe que ninguém cobra. O desenho da maçã no café não vende um iPhone sozinho, mas é o tipo de coisa que, somada, faz a pessoa confiar em você antes de comprar.
Amanhã tem mais, e eu vou continuar escrevendo aqui. Se você quiser entender por que eu insisto tanto que atenção é o ativo mais disputado do mundo, escrevi um livro inteiro sobre isso em 2018 e o Vale do Silício só confirmou a tese em cada parada de hoje.
Máquina Pro. O sistema que produz conteúdo com consistência para o seu negócio, usando IA de verdade no processo e não como enfeite.
Conhecer o Máquina ProFotos do autor, feitas durante o SDA Vale Experience em 23/9/2026. Dados do Circuit Launch e a biografia de Alex Dantas conforme o perfil dele na Singularity University e o site oficial do Circuit Launch; o segundo campus em Mountain View, no antigo prédio da Boston Dynamics, conforme o anúncio da própria empresa e a cobertura do Robots and Startups. Números do MMLU e do painel de robôs conforme os slides projetados na palestra, produzidos por Alan D. Thompson, do LifeArchitect.ai. Dimensões e operação do centro de distribuição OAK4, em Tracy, conforme a Time e a página oficial de visitas da Amazon. A designação da casa de Los Altos como recurso histórico, em 2013, conforme a CNN; o relato de Steve Wozniak sobre o quarto de hóspedes conforme o All About Steve Jobs.




