Você assinou o ChatGPT para o time inteiro. Fez a reunião, mandou o tutorial no grupo, talvez até contratou alguém para "cuidar de IA". Passaram uns meses e, quando você olha o resultado do trimestre, nada mudou de verdade.

Se isso soa familiar, você está em boa companhia. A McKinsey mostrou que quase 9 em cada 10 empresas já usam IA, mas só 6% conseguem ver isso no lucro. Eu escrevi sobre esse número aqui no blog.

O que pouca gente sabe é que esse problema não é novo. Ele tem mais de cem anos. E a história de como ele foi resolvido da primeira vez é a explicação mais clara que eu já encontrei para o que está acontecendo agora dentro das empresas brasileiras.

Em 1899, quase nenhuma fábrica usava eletricidade

Edison e Swan apresentaram a lâmpada incandescente em 1879. No começo da década de 1880 já existiam centrais elétricas vendendo energia em Nova York e em Londres, e pouco depois havia motor elétrico movendo máquina de fábrica.

A tecnologia estava pronta. Era claramente superior. E mesmo assim, em 1899, os motores elétricos respondiam por menos de 5% da força motriz das fábricas americanas. A luz elétrica estava em só 3% das casas.

Só no começo dos anos 1920 a eletricidade passou de metade da força das fábricas. E só nessa década a produtividade da indústria americana deu o salto que todo mundo esperava. Quatro décadas depois da primeira central elétrica.

Linha do tempo da eletrificação das fábricas americanas: 1879, lâmpada de Edison e Swan; início dos anos 1880, primeiras centrais elétricas; 1899, menos de 5% da força das fábricas era elétrica; início dos anos 1920, pouco mais de 50%, e a produtividade dispara
Da lâmpada ao lucro: cerca de quarenta anos. Os números são do economista Paul David, de Stanford, no estudo que virou referência sobre o tema.

Quem levantou esses números foi o economista Paul David, de Stanford, num estudo de 1990 chamado The Dynamo and the Computer. A pergunta dele era a mesma que você está se fazendo agora: se a tecnologia é tão boa, por que ela não aparece no resultado?

O erro que quase todo mundo cometeu: trocar só o motor

Para entender a resposta, você precisa imaginar uma fábrica de 1890. Ela funcionava em volta de um único motor a vapor gigante. Desse motor saía um eixo comprido, preso no teto, que atravessava o prédio inteiro. Do eixo desciam correias de couro até cada máquina. Se o motor parava, a fábrica inteira parava.

A foto da capa deste artigo mostra exatamente isso. É uma maquete que está no Science Museum de Londres: um motor numa ponta e eixos com correias levando força para cerca de 75 máquinas. Repare como tudo depende do teto.

Esse desenho mandava em tudo. Como o eixo perdia força com o comprimento, as fábricas eram construídas em vários andares, para ficar com eixos mais curtos. As máquinas ficavam onde o eixo alcançava, e não onde fazia sentido para a produção. O prédio precisava ser reforçado para aguentar todo aquele peso pendurado no teto.

Aí chegou a eletricidade. E o que a maioria dos donos de fábrica fez foi o óbvio: tirou o motor a vapor e colocou um motor elétrico grande no lugar. Mesmo eixo, mesmas correias, mesmo prédio de vários andares, mesmo layout. Trocaram só a fonte de força.

O resultado foi uma economia decepcionante. Gastaram, deu trabalho, e a fábrica continuou praticamente igual. Muitos concluíram que eletricidade era exagero.

O que deu lucro: redesenhar a fábrica inteira

A virada aconteceu quando alguém percebeu que a eletricidade permitia uma coisa que o vapor nunca permitiu: colocar um motor pequeno em cada máquina. Força não precisava mais viajar por eixo. Viajava por fio.

Comparação entre duas fábricas: à esquerda, um motor elétrico grande ligado a eixos e correias num prédio de dois andares, com resultado de economia decepcionante; à direita, uma fábrica de um andar com um motor em cada máquina e as máquinas em linha de produção, com resultado de produtividade em alta
À esquerda, o que a maioria fez primeiro. À direita, o que finalmente deu lucro. A tecnologia é a mesma nas duas. O que muda é o desenho.

E quando o eixo sumiu, tudo o que dependia dele também pôde mudar. O próprio Paul David lista as consequências:

  • Prédios mais leves e mais baratos, porque o teto não precisava mais aguentar eixo e correia.
  • Fábricas de um andar só, em vez dos prédios de vários andares que existiam só para encurtar o eixo.
  • Máquinas na ordem do fluxo da produção, e não onde o eixo alcançava. A matéria-prima entra de um lado e o produto sai do outro.
  • Linha de produção flexível: mudar uma máquina de lugar virou questão de puxar fio, não de reconstruir o teto.
  • Menos parada, porque manutenção numa máquina não desligava a fábrica inteira.
  • Ambiente mais seguro e com luz natural, sem correias de couro chicoteando acima da cabeça dos operários.

E tem uma mudança que é de gente, não de máquina. Como lembra o economista Tim Harford, que popularizou essa história, os operários passaram a ser responsáveis pela própria máquina. Isso exigiu treinamento melhor e salário melhor. A nova fábrica não funcionava com o funcionário da fábrica velha.

O resultado apareceu nos anos 1920. Paul David calculou que cerca de metade da aceleração da produtividade da indústria americana naquela década se explica estatisticamente pela expansão dos motores elétricos nas fábricas. Não pela invenção da eletricidade, que tinha mais de quarenta anos. Pelo redesenho.

Por que demorou tanto, e por que isso deveria te preocupar

Aqui está a parte do estudo que eu acho mais importante para quem tem empresa estabelecida.

O Paul David mostra que as melhores aplicações da eletricidade esperaram os prédios velhos ficarem obsoletos. Quem já tinha uma fábrica de vários andares, com o eixo pago e funcionando, não queria derrubar tudo. Era racional. O investimento já estava feito.

Quem colheu o ganho primeiro foram as fábricas novas, construídas do zero no boom econômico dos anos 1920, já desenhadas para a eletricidade. Elas não tinham eixo para proteger.

E a história se repetiu. Em 1987 o economista Robert Solow, Nobel de Economia, fez uma piada que ficou famosa: "dá para ver a era do computador em todo lugar, menos nas estatísticas de produtividade". Foi exatamente essa frase que levou o Paul David a estudar a eletricidade. Os computadores também demoraram para aparecer no resultado, e pelo mesmo motivo.

Agora é a vez da IA. E a McKinsey já mostrou o padrão: entre os 6% de empresas que realmente lucram com IA, quase três em cada quatro redesenharam fundamentalmente seus fluxos de trabalho. Os outros colaram a ferramenta em cima do que já existia.

Como saber se a sua empresa está só trocando o motor

Faça esse teste honesto. Se você responder sim para a maioria, a sua IA está pendurada no eixo velho:

  • O organograma é o mesmo de antes da IA. Mesmas funções, mesmas pessoas fazendo as mesmas etapas, só que com uma ferramenta a mais.
  • A orientação foi "usem IA". Sem dizer em qual processo, para eliminar qual etapa, medido por qual número.
  • O que a IA produz ainda passa pelas mesmas aprovações que passava quando era feito à mão.
  • Você mede uso, não resultado. Quantas pessoas usam, quantas horas "economizaram". Ninguém olha custo por entrega ou prazo de ponta a ponta.
  • Ninguém mudou de função. Quem fazia continua fazendo, e ninguém foi treinado para supervisionar o que a máquina faz.

Lá no primeiro dia da nossa viagem ao Vale do Silício, dentro de um centro de distribuição da Amazon, eu escrevi uma frase que resume tudo isso: a Amazon não automatizou a bagunça, ela organizou primeiro e automatizou depois. Os robôs de lá não teriam valor nenhum colocados num galpão desenhado para gente empurrando carrinho.

Como redesenhar a sua fábrica, na prática

  1. Troque a pergunta. Pare de perguntar "onde eu coloco IA?". Pergunte: se eu montasse essa área do zero hoje, sabendo que a IA existe, como ela seria? Quantas pessoas, quantas etapas, quantas aprovações. A diferença entre as duas respostas é o tamanho da oportunidade.
  2. Escolha um processo, não uma ferramenta. Comece por um só, e de preferência um que mexe com dinheiro: proposta comercial, atendimento, produção de conteúdo, cobrança. Projeto piloto pequeno, com resultado que dá para medir.
  3. Escreva esse processo em uma página. Passo a passo, sem nome de pessoa. Depois risque todas as etapas que só existem por causa do eixo velho: a cópia, o retrabalho, a aprovação que ninguém lembra por que foi criada.
  4. Mude o papel das pessoas, e pague por isso. Igual ao operário dos anos 1920, quem sai da execução precisa virar responsável pelo resultado da máquina. Isso exige treino e, muitas vezes, salário melhor. Economia de folha que não reinveste em gente vira fábrica velha com motor novo.
  5. Meça o processo, não a ferramenta. Prazo de ponta a ponta, custo por entrega, receita por pessoa. Se esses números não mexeram, você só trocou o motor.
  6. Seja paciente com o resultado, nunca com o começo. A eletricidade levou décadas porque cada dono de fábrica esperou o prédio velho cair sozinho. Você não precisa esperar. Mas precisa começar a desenhar o prédio novo agora.

Estamos em 1886?

O ChatGPT foi lançado em novembro de 2022. Se ele foi a nossa lâmpada de Edison, hoje estamos mais ou menos quatro anos depois, o equivalente aos meados da década de 1880 na história da eletricidade. A tecnologia já funciona, quase todo mundo já ouviu falar, e quase ninguém redesenhou nada.

Não leve a comparação ao pé da letra. Tudo hoje se espalha muito mais rápido do que em 1880, e ninguém precisa de quarenta anos para colher resultado. Mas o recado da história é claro: o atraso nunca foi da tecnologia. Foi do redesenho. E redesenho é decisão de dono, não de TI.

Se você ainda está no começo dessa jornada, comece por aqui. E se acha que dá para esperar mais um pouco, veja o que acontece com a empresa que fica de fora.

Imersão Sprint, 9 e 10 de novembro, em Alphaville. Dois dias redesenhando, na prática e com o seu notebook, um processo da sua empresa em volta da IA. Você não sai com anotação, sai com a máquina montada e rodando.

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Este artigo nasceu de um texto de Timo Elliott, evangelista de inovação da SAP, que compara a adoção da IA à da eletricidade. Os dados históricos foram conferidos na fonte original: Paul A. David, The Dynamo and the Computer: An Historical Perspective on the Modern Productivity Paradox, American Economic Review, 1990, de onde vêm a participação de menos de 5% dos motores elétricos na força das fábricas americanas em 1899, os 3% de casas com luz elétrica, a passagem de 50% no começo dos anos 1920, as vantagens do redesenho das fábricas e a estimativa sobre a aceleração da produtividade nos anos 1920. A troca do motor a vapor por um motor elétrico do mesmo tamanho, a reorganização das fábricas e a mudança no papel dos operários conforme Tim Harford. Dados de adoção de IA e do redesenho de fluxos entre as empresas que lucram com IA conforme a pesquisa da McKinsey comentada aqui no blog. Foto de capa: "In the Victorian Machine shop", maquete do Science Museum de Londres, por Les Chatfield (CC BY 2.0).