A McKinsey publicou a edição 2026 da pesquisa The State of AI, com 1.719 líderes de empresas em 97 países, e o número que abre o relatório é o que todo mundo já esperava: 89% usam IA regularmente em pelo menos uma área do negócio. Bonito. Só que tem outro número, mais para baixo, que é o que interessa de verdade.

Só 6% são o que a McKinsey chama de "high performers" — empresas em que pelo menos 5% do lucro operacional (o EBIT) vem da IA. Seis por cento. Os outros 94% estão usando, pagando licença, fazendo reunião sobre o assunto, e não conseguem apontar a IA na última linha do resultado.

E o que separa os 6% do resto não é orçamento, não é o modelo que usam, não é ter contratado gênio. É uma coisa que qualquer empresa pode fazer e quase nenhuma faz: eles redesenharam o processo de trabalho. Os outros colaram um chatbot em cima do que já existia.

O que a McKinsey mediu

  • 89% usam IA em pelo menos uma função do negócio.
  • 44% dizem estar escalando IA na empresa inteira — não só em piloto ou num departamento.
  • 80% dizem que a IA melhorou a própria produtividade; 50%, que ajuda a decidir melhor.
  • 37% atribuem algum impacto no EBIT à IA — o mesmo percentual do ano passado. Ou seja: muito mais gente usando, a mesma quantidade de gente lucrando.
  • 6% são high performers: pelo menos 5% do EBIT vem da IA. Também não mudou.
  • Entre esses 6%, quase três em cada quatro redesenharam fundamentalmente os fluxos de trabalho — no ano passado eram 55%.
Gráfico de barras com a pesquisa da McKinsey: 89% usam IA em alguma área, 44% escalam na empresa inteira, 37% veem algum impacto no lucro e 6% têm ao menos 5% do EBIT vindo da IA
De cada 100 empresas que usam IA, 6 lucram de verdade com ela. A diferença entre as duas pontas não é tecnologia.

Colar um chatbot não é adotar IA

Vou te dar o exemplo mais comum que eu vejo. A empresa compra licença de IA para todo mundo. O time usa para escrever e-mail mais rápido, resumir reunião, fazer apresentação. Cada pessoa ganha vinte minutos por dia. E o processo continua exatamente o mesmo: a mesma aprovação em três níveis, o mesmo relatório que ninguém lê, a mesma reunião de segunda.

Resultado: 80% dizem que ficaram mais produtivos — e o lucro não mexe. Porque os vinte minutos que a IA economizou foram absorvidos pelo mesmo processo ruim de antes. A IA amplifica o que já existe. Se o processo é bom, ela multiplica. Se é ruim, ela só faz o ruim acontecer mais rápido.

IA em cima de processo ruim é processo ruim com licença mensal.

Os 6% fizeram a pergunta ao contrário. Em vez de "onde eu encaixo a IA no que a gente já faz?", perguntaram "se eu fosse montar esse processo hoje, sabendo que a IA existe, como ele seria?" A resposta quase sempre é um processo com menos etapas, menos gente no caminho e menos reunião. É isso que aparece no EBIT.

O que eu vi acontecer na minha própria operação

Eu não estou falando de relatório de consultoria. Estou falando do que eu vivi. Numa empresa em que sou sócio, a gente tinha um gestor de tráfego. Colocamos uma IA rodando em paralelo — não para "ajudar" o gestor, mas para fazer o processo inteiro: olhar o que funciona, refazer criativo, pausar o que não rende, trazer relatório. Comparamos as duas campanhas. A da IA ganhou. Hoje o tráfego inteiro está na mão dela.

Outro caso. Lançamos um produto em que a IA fez o produto, a página, os criativos e o roteiro das aulas — algo entre 70% e 90% do trabalho. Nos primeiros vinte minutos de lançamento, R$ 1 milhão. Não foi porque a IA "ajudou o time". Foi porque a gente desenhou o lançamento em volta do que a IA faz bem, e o time ficou só com o que exige gente.

E o caso que mais me marcou: um produto novo com reembolso alto. Cinco pessoas discutindo no grupo o que podia ser. Joguei os prints da conversa na IA. Em segundos ela cruzou os criativos com os reembolsos e apontou um único anúncio, com 15% de devolução, que puxava a média inteira — e explicou por quê. Cinco pessoas não tinham chegado nisso em dias. Isso é redesenhar o processo de decisão, não acelerar o antigo.

Por que isso é uma chance para a empresa pequena

A pesquisa mostra o abismo: entre empresas com mais de US$ 1 bilhão de receita, 54% já escalam IA na empresa inteira; entre as menores, 33%. Em agentes de IA — sistemas que executam tarefas sozinhos — as grandes foram de 27% para 40% em um ano; as pequenas ficaram em 22%. Eu já escrevi aqui sobre o abismo que está se abrindo no Brasil, e o dado global confirma.

Mas olha o outro lado. Redesenhar processo numa empresa de 15 pessoas leva uma semana. Numa de 15 mil, leva dois anos e três comitês. A grande tem dinheiro para comprar a ferramenta; a pequena tem velocidade para mudar o processo. E a pesquisa acabou de dizer que é o processo, não a ferramenta, que aparece no lucro.

Como redesenhar um processo, na prática

Não é projeto de transformação digital. É uma sequência simples que eu repito em toda operação que entro:

  1. Escolha um processo, não uma ferramenta. O que mais consome hora repetitiva na sua empresa? Atendimento, proposta, relatório, criativo, conciliação. Pegue um só.
  2. Escreva como ele funciona hoje, etapa por etapa, como se fosse treinar alguém novo. Você vai se assustar com quantas etapas existem só porque sempre existiram.
  3. Desenhe a versão "se eu começasse hoje". Com a IA fazendo o que é padrão e repetitivo, quais etapas somem? Quais aprovações viram automáticas? Quem sai do caminho?
  4. Rode 30 dias com revisão humana obrigatória. Meça horas economizadas e erro. Não escale antes disso.
  5. Só então vá para o segundo processo. Uma empresa com três processos redesenhados de verdade está na frente de uma com trinta licenças de IA e zero processo mudado.

Se você quer um roteiro mais completo de por onde começar sem virar programador, eu escrevi este guia aqui.

O resumo, se você só puder guardar uma coisa

89% usam. 6% lucram. E os 6% não têm uma IA melhor — têm um processo que foi desenhado para ela. Ferramenta sem mudar processo não muda resultado. Nunca mudou, com nenhuma tecnologia, e não vai ser diferente agora.

A boa notícia é que o que separa você dos 6% não custa caro. Custa a coragem de olhar para um processo que "sempre foi assim" e perguntar se ele ainda precisa existir.

Imersão Sprint — 17 e 18 de setembro, em Alphaville. Dois dias montando, na prática, um sistema de IA que entrega mais que agência, gestor ou freelancer. Você sai com o processo redesenhado e rodando, não com anotação.

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Fonte: pesquisa [The State of AI 2026](https://www.mckinsey.com/capabilities/quantumblack/our-insights/the-state-of-ai), da McKinsey, publicada em 25/8/2026 com 1.719 respondentes em 97 países; cobertura da [Fortune](https://fortune.com/2026/09/02/companies-getting-the-most-from-ai-rethinking-how-work-gets-done-cfo/) em 2/9/2026. Os casos citados são das operações do próprio autor. Foto de capa: Technologyrecipe, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).